jusbrasil.com.br
17 de Janeiro de 2019

O desespero em busca de um relacionamento e a Síndrome do Sapo Fervido

Sara Próton, Advogado
Publicado por Sara Próton
há 6 meses

A primeira pergunta é: relacionamentos amorosos são necessários? Muitos têm a resposta fixa que sim, alguns, após inúmeras frustrações dizem que não, e poucos vêm relacionamento como um bônus ao atingir a maturidade.

As frustrações quando superadas e entendidas são boas, pois nos reaproximam de nós mesmos e concedem oportunidades para o autoconhecimento, que possivelmente foi relegado e por isso a escolha do parceiro não foi adequada.

Já os que vivem incansavelmente em busca de um companheiro, não conhecem a beleza da própria companhia e estão emocionalmente vulneráveis. A caçada incansável por uma companhia é a procura por não ficar sozinho consigo mesmo, pois a própria companhia é desagradável ou tem pouco ou quase nada a oferecer. Pessoas que não toleram a solidão acreditam que o outro é responsável pela sua felicidade. Palavras duras? Talvez, mas duro mesmo é o que as pessoas aceitam ou impõem aos outros quando são pedintes afetivos, e isso inclui inúmeras violências - psicológicas, físicas, morais, sexuais e patrimoniais. Sempre escrevo sobre o viés jurídico das relações afetivas e suas violências, mas o melhor é não precisar do Direito Penal para puni-las.

1. PESSOAS NÃO REALIZAM OS NOSSOS SONHOS

Um dos principais equívocos humanos é acreditar que o outro realizará os nossos sonhos, e depositar a própria felicidade nisso. Mas relacionamento não é sobre necessidade, sobre receber, ser complementado ou completar alguém, relacionamento é doação, é presentear o outro com a sua presença, mas só podemos nos doar quando estamos completos, e só doamos aquilo que temos.

2. PEDINTE AFETIVO

Quando se busca a felicidade - que é algo interno e pessoal, na companhia de outra pessoa - você desvaloriza o que você é, provavelmente porque não se conhece e desacredite de si. A dependência emocional te faz exigir do outro aquilo que você não faz e aquilo que você não é, assim como o aceite de tudo e qualquer tratamento, sentimento e pessoas.

Na busca incansável por companhia, você esquece que a principal, única e absoluta companhia é a sua, e somente ela resolverá os seus problemas e conflitos. Na busca desordenada pelo outro, esquece-se que relacionamento é negociação, mas principalmente, que existem “coisas” que são inegociáveis, entre elas a sua paz e a sua moral. Pela necessidade de parceiro negocia-se tudo em troca de afeto, mas afeto não se pede.

3. CASTRAÇÃO

O desespero para ter companhia ou permanecer ao lado de outra pessoa é imenso, e nessa imensidão a pessoa pratica a autocastração, se anula, abre mão da individualidade, abandona os prazeres, e vive em prol do outro. Transforma-se o relacionamento numa fusão, sem saber quem é quem e porque é; perde-se as próprias características, anula-se, e torna-se uma sombra do outro. Posteriormente atinge o estágio da cobrança, e exige que o outro também faça o mesmo e viva em prol da relação, afinal, a pessoa fez o sacrifício – tolo - e que ninguém pediu, do abandono de si mesmo, mas que já começou antes mesmo do relacionamento.

4. POSSE, INVASÃO E VIOLÊNCIAS

Após a anulação de si, o indivíduo que já começou o relacionamento buscando completar as próprias faltas através do outro, encontra-se ainda mais vulnerável e dependente. Pela ausência de amor próprio e pelo tempo livre, afinal, abandonou a própria vida então o tempo ocioso se estendeu, passa os dias e horas na expectativa de atenção, e quer a todo custo ser importante e presente, assim como o seu “objeto de amor” é na sua vida.

O lazer do outro, que até então não incomodava, passa a ser motivo de vigília constante, assim como os horários, companhias e quando não recebe convite para participar de alguma programação isso vira brigas, ciúmes e acusações de traição e todo tipo de situação que uma mente criativa e desocupada é capaz de criar.

As acusações constantes e cobranças por afeto desgastam o relacionamento e o outro vai embora (e a pessoa fica num vazio ainda maior, pois se fundiu a outrem); o outro não entende as agressões verbais e por vezes físicas e permanece sufocado, prestes a explodir ou o outro se aproveita dessa situação e retribui as acusações e violências – as vezes inconscientemente, pois muitos não compreendem a situação que vivem e vêm as agressões como defesa, e isso vira um ciclo, o pedinte afetivo sufoca e violenta o companheiro e o companheiro as vezes se defende retribuindo as agressões.

A verdade é que os nossos relacionamentos são iguais as relações que temos conosco, você se anula, não se respeita, não confia em você e não gosta da própria companhia, logo é exatamente isso que fará e receberá. Você é incompleto, logo encontrará alguém que também é; você está no relacionamento para saciar as suas necessidades e vampirizar o outro, então é isso que receberá. A solidão e ausência de autoconhecimento dá asas aos abusos e violências.

5. HOSTILIZAÇÃO E DISPUTA DE PODER

Hostilizar o outro também é comum, como forma de dominação e demonstração de poder, quando existe insegurança. A hostilização é uma das representações dos maus tratos, que é uma violência psicológica, naturalizada, sutil, aceita, difícil de provar, entretanto de danos superiores a violência física, pela capacidade lentamente destrutiva.

A violência psicológica diminui a autoestima, aumenta a dependência, promove a desvalorização pessoal, e o indivíduo que já entrou no relacionamento incompleto, passa a crer que é incapaz de viver sozinho e agride o outro para tentar dominá-lo e enfraquece-lo a ponto de se sentir impotente e que não merece outra pessoa. Consequentemente, meio a tanta agressão, o companheiro já com a autoestima baixa não se sente desejado, e aceita as relações sexuais por medo da perda; tem medo de tomar decisões e desagradar e se omite, pouco a pouco também se castra, mas a agressora continua a responsabilizar o outro pelas frustrações e pratica terrorismos constantes, como reflexo da sua insegurança, com cobranças desmedidas até que o outro acredite nisso e peça desculpas, se humilhe, porém nunca ficará satisfeita, pois ninguém soluciona o vazio alheio.

Pode ocorrer o contrário também, quando a pedinte afetiva se encontra em tamanha vulnerabilidade que aceita toda e qualquer agressão, sem retribuir, simplesmente por se achar incapaz.

6. INÍCIO DAS AGRESSÕES

A violência começa no namoro, porém é ignorada, aceita e gradativamente aumenta. O indivíduo, dependente afetivo, que se torna agressor, continua violento, pois o outro, também carente e incapaz de viver sozinho aceita; ou o dependente afetivo se torna presa fácil de quem detém o “poder” da relação, mas que também é inseguro, pois necessita de violência para se auto afirmar.

“Mas ela mudou de comportamento de uma hora para a outra”. NÃO!

Mas ele nunca fez nada nem próximo disso”. NÃO!

“Mas ela estava na TPM”. NÃO!

“Mas ele bebeu um pouco”. NÃO!

“Mas foi só uma vez”. NÃO!

Não, não e não! A agressão não começa do nada, ela é paulatina. Não existe justificativa para tal, nem causas hormonais, que podem ser controladas, nem o uso de álcool e drogas, que apenas “libertam” o que a pessoa omite, e tampouco a agressão – independente da espécie – ocorrerá uma única vez. PARE DE SE ENGANAR E DE ENGANAR O OUTRO!

Mas as violências são relevadas, afinal o status quo de estar num relacionamento é melhor que estar só, segundo o pensamento da maioria.

A principal agressão ocorre quando se busca um relacionamento ausente de conhecimento, sem saber o que pode ou não oferecer, o que agrada ou desagrada e enxerga o outro como válvula de escape para os problemas não resolvidos. Isso é uma receita completa para a frustração, aumento de traumas, sofrimento e violências, sofridas ou perpetradas.

7. TIPOS DE VIOLÊNCIA

Erroneamente acredita-se que violência afetiva se restringe a violência física, todavia ela também é moral, patrimonial, sexual e psicológica. Culturalmente acredita-se ainda, que apenas a mulher é sujeito passivo da violência conjugal, entretanto, violência não tem gênero e tanto homens quanto mulheres podem e são vítimas – mas ao homem é negado o direito de fala, e proteção legal.

A violência psicológica, praticada massivamente pelo sexo feminino e naturalmente aceito na sociedade brasileira, envolve xingamento, agressões verbais, ameaças de infidelidade, humilhação, acusações, constrangimentos em público, desqualificação, privação de contato com a família e amigos, abusos, autoritarismos, chantagens emocionais, vigilâncias e perseguições (pessoalmente ou em redes sociais) e qualquer outra conduta danosa a autoestima ou que controle ações, para causar ciúmes e insegurança. A violência psicológica está contida nas demais formas de violência, e esta principalmente reduz a autoconfiança masculina.

Violência física é a agressão que ofende a saúde ou integridade física, como tapas, pontapés, socos, empurrões, chutes, queimaduras, agressões com instrumentos variados (entre eles, faca, ferro de passar roupa e vassoura), estigmas ungueais (ou arranhões de amor), arremesso de objetos (o preferido das mulheres).

Violência moral, calúnia (art. 138, Código Penal), injúria (art. 140, Código Penal) e difamação (art. 139, Código Penal), com o objetivo de destruir a reputação do outro.

Violência sexual, culturalmente definida como crime impossível a ser praticado por mulheres, essa ocorre com frequência, quando o homem é submetido contra a sua real vontade a tocar a companheira ou ter relações sexuais, tendo sua masculinidade a prova ou o descumprimento do dever conjugal, assim como parceiras que insistem que o companheiro use remédio para aumentar a duração das ereções, sem se importar com a saúde deste; bem como homens que insistem em relações sexuais com as esposas contra a sua vontade. Faz-se mister ressaltar, que a insistência por não usar preservativo, assim como práticas sexuais que desagradam o outro, também é violência sexual.

Violência patrimonial: quebra ou destruição de objetos, usualmente praticado pelas mulheres em estado de descontrole e fúria, celular, som, televisão, porta de carro, bem como a retenção de bens e gastos financeiros que seriam destinados ao pagamento das despesas do casal, utilizado para o deleite da mulher, como forma de punição ou exigência de algo almejado, material ou afetivo; e homens que impedem a parceira de trabalhar e ter independência financeira.

Permanecer na constante violência torna o indivíduo dependente, acostumado as agressões, naturalizando-as e retira-lhe a sensibilidade para o inaceitável e impraticável.

8. SÍNDROME DO SAPO FERVIDO

Muitos que vivem relacionamentos abusivos se perguntam porque permanecem nessa situação, e não conseguem um fim, ou sentem-se mal, mas ao mesmo tempo têm a sensação que já se adaptaram ás violências. Para esse tipo de pessoa existe uma metáfora conhecida como “Síndrome do Sapo Fervido”, que diz o seguinte:

“O Sapo quando é colocado numa panela com água quente não suporta aquela temperatura, salta imediatamente conseguindo sobreviver. Entretanto, quando o mesmo sapo é colocado numa panela com água fria e, gradualmente, essa água vai aquecendo, ele não percebe o calor. Fica parado e quieto. Morre, depois de algum tempo, inchado e feliz”.

Assim como o sapo fervido são as pessoas, que se acomodam com a situação destrutiva, não querem sair dela, acreditam em milagres ou creem que não há outra solução. O sapo fervido pode ter as suas necessidades primárias atendidas, mas em breve morrerá. O sapo suporta a temperatura da água durante muito tempo, até o seu limite, assim como as pessoas que se submetem a relacionamentos conturbados até serem completamente vampirizadas e ficarem sem nenhuma energia, correndo perigo constante, mas não viu necessidade de pular da panela, cuja água aquece cada vez mais e queima pouco a pouco, até que não exista energia e força para saltar.

Mas o que mata o sapo não é água fervendo, é a preguiça, medo ou comodismo em não pular, e a água agradável, naquele momento. Talvez seja hora de saltar da panela, enquanto é tempo; talvez você não deva entrar nela. A exploração psicológica, financeira, física e sexual não tem limites e é você que deve colocar um basta ou nem mesmo começar uma relação se está suscetível afetivamente e incompleto. As vezes a solução não é aguentar o desconforto e esperar, mas saltar, saltar enquanto há forças e vida dentro de você.

Assim como a água aumenta a sua temperatura, os ponteiros do relógio passam, e a vida é demasiadamente breve para aceitar o sofrimento, a violência e a própria incompletude. Você só é infeliz se quiser, a felicidade está nas suas mãos, não na presença do outro. Não é o outro que tem que mudar, é você que tem que ter a coragem de saltar; saltar dessa situação, saltar da inercia, saltar do comodismo, saltar das vulgaridades e saltar com todas as suas forças o mais alto que puder, para se conhecer e se completar com as próprias belezas que só você carrega e pode adubar.

9. OBSERVAÇÃO E AUTOCONHECIMENTO

Voltando a pergunta inicial: relacionamentos amorosos são necessários? Responderia que não e que são arriscados e danosos aos que não estão prontos para lidar com o mundo do outro, pois não sabem nem mesmo lidar consigo. Companhia é divertido, poder compartilhar momentos, mas relacionamento é para ser leve, e essa leveza só atingimos com maturidade – maturidade que não depende de idade, mas de autoconhecimento.

Relacionamentos são bônus que as vezes temos, as vezes não. Pessoas são coadjuvantes em nossa vida, cujo ator principal é você. Se você for completo, terá algo a oferecer, terá o que doar, e consequentemente será uma pessoa agradável, sem cobranças e pesos, e atrairá outra pessoa assim, disposta a doação e não a exigências, e que poderá dividir alguma época com você, mas quando resolver sair da sua vida, não se sentirá vazio, pois você permaneceu com sua individualidade, mundo, personalidade e diferente da maioria, não se castrou e fundiu ao outro.

O autoconhecimento te mostrará que não deve ser aberto e aceitar qualquer ideia e pessoa, pois isso leva a autodestruição. Você buscará o semelhante, afinal as divergências que eram divertidas no início, com o passar do tempo viram fardos. Você mesmo fará inteligentemente uma lista com as qualidades que gosta e as que repele numa pessoa. Você analisará os efeitos colaterais antes de tomar o remédio, ao invés de ingerir pela simples propaganda. Você terá a paciência de distinguir o que é publicidade do que é interno. Você terá a racionalidade de compreender não o que a pessoa diz de si mesma, mas o que ela combate. Você se reconciliará consigo mesmo ou se encontrará pela primeira vez. Você, quando estiver completo não aceitará menos que o merecido, pois terá paz e não irá se submeter a situações e pessoas que te retire algo tão precioso. Você não ficará numa disputa de poder e autoritarismos, mas delimitará o seu território, pautado no conhecimento de si e sua individualidade, com admiração, respeito e dignidade. Relacionamento demanda racionalidade, assim você não será vítima nem infratora, mas estará pronta para construir lentamente um relacionamento.

Se dê o presente de se conhecer, não peça nada, não cobre nada, doe sorriso, doe atenção. O sentido da vida não é cobrar, quando você se ama não precisa de nada, você está completo e assim pode acrescentar na vida do outro. Amor é ser um presente, e não alguém que usurpe a paz alheia. Amor é serenidade, afeto, ausência de medo, completude, sensatez e respeito, a si e ao mundo do outro, é uma construção gradativa.

Quando você se conhece identifica o que faz mal e as violências precocemente, se afasta e salva a sua vida. Não seja o sapo que espera a água ferver. Tempo é vida e relacionamento demanda autoconhecimento!

Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas. – Pablo Neruda

74 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Estou sem palavras para descrever o quanto esse artigo trouxe informações que muita gente sabe e não consegue pôr no papel. Eu mesmo, já passei por uma situação exatamente como essa por quase 8 anos e não entendia o que acontecia. Hoje reconheço que tive a síndrome do sapo fervido (rs).

No campo do Direito, especificamente no Direito de Família, entendo que esse artigo pode contribuir e muito, pois hoje necessitamos de um viés psicológico além do meramente legal. Como atuante na área, lamento muito que os juízes e advogados enxerguem as relações familiares como números e palavras apenas, deturpando seu real sentido, que é a construção de laços sólidos e desenvolvimento de uma sociedade justa com espectro na família.

A interpretação psicolegal (termo que acabei de inventar) é imprescindível para entendermos todos os fenômenos que envolvem esse ramo tão lindo e poderoso do Direito. continuar lendo

Obrigada pelo comentário Luiz! Fico muito feliz pelas palavras.
Confesso que meu coração sempre bateu pelo direito penal, mas realizando algumas pesquisas sobre violência doméstica contra os homens, vi que direito penal e direito de família são inseparáveis e que embora os ritos sejam diferentes, grande parte dos crimes ocorrem por causa da família (nela ou por desestrutura dela). Observei mais ainda que não adianta em nada escrever e escrever sobre violência conjugal, se o problema pode ser resolvido sem nem mesmo chegar ao Judiciário ou se chegar, precisa-se de sensibilidade.

Nem publicaria o artigo de opinião aqui, pois escrevi para um site (não jurídico), e inclusive a linguagem é simplória para facilitar o entendimento e estou surpresa com os comentários aqui. Acho que as vezes temos que simplificar as palavras para traduzir o que a frieza dos códigos não dizem, né?! rs

Nós do Direito, independente da área temos que lutar e buscar a convivência humana, e isso caminha pela compreensão do outro. Nós, eternos estudantes, temos uma missão belíssima, pois não lidamos com leis, lidamos com vidas, com sentimentos, frustrações, traumas e sonhos... continuar lendo

O Direito de hoje deve ser voltado aos jurisdicionados e não operadores, por isso a simplicidade é essencial. O Jusbrasil têm sido uma ferramenta mais do que capaz de proporcionar essa "adequação". continuar lendo

O ser humano é um ser social e isso leva ao medo da solidão. Isso é fato inafastável. No entanto, não é preciso viver um relacionamento amoroso para o bem estar pessoal e social. Pessoas bem resolvidas prescindem disso. Pessoalmente, tenho uma prima que escolheu servir ao próximo e buscar a própria felicidade na igreja. Optou por ser irmã de caridade e leva uma vida incrível. Rodeada de amigos e pessoas que a consideram na mais alta estima e consideração. Faz parte de vários movimentos, entre os quais, pastoral carcerária e iniciativas relativas ao direito indígena e de imigração. Viaja todo ano, pelo mundo todo, levando sua fé inabalável como uma fortaleza de esperança às pessoas oprimidas, com trabalhos de campo e também acadêmicos, onde dá palestras em encontros e um monte de coisas. Eu, de minha parte, fico muito feliz. Não me faltam mimos importados que ganho de suas viagens ao redor do mundo. Nenhuma mulher aí que se diz "realizada" como mãe, mal casada com maridos horríveis, e matando um leão por dia na luta diária pela sobrevivência leva uma vida mais feliz, excepcional e cheia de aventuras que essa. Duvido. Casamento não é tudo. Também tenho outra amiga que optou por não casar. É mãe solteira e os dois filhos já estão na faculdade e igualmente, como amiga e testemunha de sua vida desde a infância, posso assegurar que conheço pouca gente mais realizada e bem resolvida que ela. Apesar de ter filhos sem nunca ter sido casada, a simples ausência de um companheiro castrador a permitiu ir longe na vida profissional e até social. São duas pessoas em quem me inspiro sempre, para botar ordem em minha própria vida e emoções, sabedora de que meu próprio casamento tem por objetivo uma comunhão de vida para somar e é assim que o conduzo. Aliás, a julgar pelas inúmeras desculpas esfarrapadas que ouvimos das pessoas casadas para se furtarem aos compromissos sociais alegando questões domésticas como impeditivos, estou para dizer que pouca coisa isola mais o ser humano que uma relação afetiva mal estruturada e mal gerenciada, tanto material quanto emocionalmente. Pessoas livres se mostram muito mais abertas a atuar na sociedade de forma positiva, o que nos mostra que os relacionamentos estão longe de ser o caminho para a felicidade. Muito sofrimento que se vê nas varas de família e nas delegacias da mulher seriam evitados na Terra se as pessoas não se apegassem ao desespero e se permitissem viver, simplesmente. A vida oferece muita coisa boa, mas para desfrutar disso, é preciso viver a vida. continuar lendo

Excelentes as suas considerações, colega! Permita-me apenas fazer um breve comentário sobre a (ausência) de vida social de alguns casais: poucas coisas na vida consomem tanto tempo, atenção e energia do que cuidar e educar crianças. E não, isso não é uma desculpa de pais e mães acomodados e preguiçosos.

Neste ponto estaríamos tentados a pensar que o melhor seria não tê-los, como muitos casais, lastimavelmente, estão fazendo na atualidade. Enorme engano...! Além de ser algo extremamente recompensador e gratificante, devemos ter em mente que os filhos crescem muito, muito rápido e em pouco tempo seguem seu próprio rumo, em suas próprias vidas. E mais tarde eles trarão mais pessoas para complementar as nossas vidas e espantar a solidão que poderia vir trazida pelo tempo: netos, netas, noras, genros...! Minha mãe, do alto dos seus sessenta e dois anos de lucidez, vitalidade e trabalho é a maior prova, para mim, disso. Trabalha, estuda e ainda dá aulas em uma universidade local... tudo isso sem deixar de tomar uma cervejinha todo final de semana.

E depois de tudo, oxalá, ainda teremos muito tempo e saúde - com os avanços da medicina moderna e da farmacologia - para retomar projetos adiados, realizar sonhos esquecidos e terminar missões inacabadas. Há tempo para tudo nessa existência: tempo para plantar... e tempo para colher...! continuar lendo

Obrigada por dividir suas experiências Christina, valiosas e que ilustram bem o texto. Cada um deveria escolher a vida que vai levar, com consciência, mas infelizmente não ocorre assim; as pessoas, independente do sexo seguem a maioria e dizem que é liberdade, quando na verdade liberdade demanda consciência. Fazer só por fazer, sem pensar nas consequência de seguir o "padrão alheio", mas que também faz por não se conhecer...
Não preciso escrever mais nada diante da belíssima colocação que finalizou seu comentário: "A vida oferece muita coisa boa, mas para desfrutar disso, é preciso viver a vida."

Bju continuar lendo

Palavras belas e doces, David Devasconcelos!
Creio que muitos casais fazem essa escolha, alguns são felizes outros não, mas ao mesmo tempo aqueles que tem ciência que não terão tempo para cuidar dos filhos, creio que é melhor não tê-los, pois os pais são as bases e espelho dos filhos... Como um pai vai observar que o filho está com uma borracha a mais no estojo, e conversar sobre o porque não poderia estar com ela ai, se não tem tempo de acompanhar?

Ultimamente o egoísmo grita, mas se o sorriso e cheirinho de uma criança inocente não é capaz de amenizá-lo, um ser tão vulnerável não deve sofrer as consequências disso.
Comentei anteriormente, para a Andreia, sobre a imposição que muitos casais têm, e cobranças excessivas que devem ter filho, que as vezes realmente não têm desejo nem vocação para maternidade/paternidade, mas diante de tanta insistência familiar resolvem ter e como essa criança sofre, abusos, rejeição, competição com a mãe, abandono afetivo...

Assunto delicado, que requer principalmente autoconhecimento, sobre amor e limites pessoas, mas confesso que suas palavras me tocaram demasiadamente. Obrigada! continuar lendo

@daviddevasconcelos

Obrigada pelo seu comentário. Eu entendo a questão da criação de filhos. Porém, os filhos são bem menos complicados que nós imaginamos. Eles dormem sentados, pelo amor de Deus. Ô inveja. Quisera eu. Mas, resumindo, até minha citada amiga que educou sozinha dois filhos, sem marido, sempre conseguiu conciliar maternidade com carreira e vida social. Na minha casa, quando recebo amigos, sempre troco os lençóis, pois sei que junto virá uma criança dormindo. Qse sempre. Além disso, alguns compromissos podem ser cumpridos apenas por um. Outro dia o casal deixou de ir num evento porque o filho estava dormindo. Uai. Não entendo. Precisa de dois pra vigiar uma criança que está dormindo? É sério isso? Desculpe, mas na minha opinião, aí já está a tal relação disfuncional, onde um não consegue fazer nada sem o outro e daí a relação toda perde o sentido, pois se não é pra somar, pra que é? Nos filmes, já tem algumas falas de piadas prontas onde o personagem atarefado deseja ter um clone pra mandar em seu lugar. Está aí. O maridão não serve? Uma graça divina é ter alguém para dividir o fardo da vida. Ás vezes, ajudando a carregar, às vezes, carregando sozinho pra dar uma folga ao outro. Outro dia, eu fui sozinha a um compromisso social porque meu marido ficou olhando minha mãe de 93 anos, acamada. E uma amiga exclamou: que marido é esse que fica olhando a sogra pra esposa sair? Bem, dou graças à Deus por isso. Pois do contrário, ficaríamos sempre os dois em casa e além de olhar minha mãe, eu teria o dobro de todo o resto para fazer, pois ele seria apenas um peso morto. Mais uma boca pra alimentar e mais um com quem me ocupar. Não faz sentido. Eu levo equipamentos para clientes dele num sábado de manhã pra que ele possa sair com a mãe dele. Acho que essa ajuda mútua é o que dá sentido ao casal. A comunhão de vida, como digo. É ser um pelo outro. E também um para o outro. E daí vem a divisão de tarefas. O casal pode se alternar nos compromissos sociais para que um possa olhar o filho enquanto o outro sai. Não precisa ficar os dois presos. Em geral, a mulher olhando a criança e o marido vendo TV e abrindo geladeira e gritando perguntando onde está isso e aquilo, dobrando o trabalho da mulher que já está ocupada com a criança. Até pra ajudar é uma bênção né. "Me ajude aqui com esse banho, enquanto eu esquento a água, vai pegar uma toalha seca". Sonho seu. Logo começa "onde está a toalha? Cadê a cadeirinha? A fralda do pote acabou, onde tem mais?" NO final, a mulher acaba fazendo tudo sozinha mesmo. Antes o cara sair pra ir ajudar o padre lá no negócio das barraquinhas da igreja. Pelo menos estará representando o casal em algo útil, como servir a Deus. E no dia seguinte a mulher vai no lugar dele. E sozinho, ele irá achar, de um jeito ou de outro, a cadeirinha, a toalha, a fralda, etc. Quando eu era criança, o horário da novela era sagrado. Era o momento de minha mãe relaxar e descansar do dia. Se eu demandasse qualquer atenção, meu pai dizia: "não incomode sua mãe na hora da novela". Eu obedecia. E fim de papo. Hoje os pais estão reféns dos filhos, isso sim. Muitos deles, não todos. continuar lendo

Sara Proton, eu evito conectar a internet em casa e não tenho whatsapp. Tudo para poder dar um pouco mais de atenção às minhas filhas. Tudo para ter um tempo com um pouco mais de qualidade com elas. Parece pouco mas percebo que está fazendo diferença.

E, como eu afirmei no meu comentário anterior, o tempo passa tão rápido mas tão rápido que aquela criança que há pouco tempo estava pedindo para você atar a sandália em seu pé, estará andando de bicicleta na frente de sua casa e, em menos tempo ainda, estará começando a aprender a dirigir o seu carro com você em pânico no banco do passageiro...! Esse é o meu foco! Minha mãe conviveu muito menos com o David criança do que com esse barbudo corpulento que eu vejo no espelho do meu banheiro, todos os dias. E ela, hoje, percebe isso...! Tanto que não desgruda das netas.

Por fim, sempre digo que, ninguém, jamais, estará preparado ou preparada para a tal da paternidade/maternidade. É impossivel...! Embora, com toda certeza, fiquemos melhores e mais competentes nessas funções com o passar dos anos. Eu sofro bem menos com a caçula do que sofri com a maior. E assim costuma ser com todo mundo...! continuar lendo

Minha cara Cristina, entender de educação de crianças é beeemmm diferente de vivenciar a experiência. Apenas confie em mim, quando eu digo isso! RSRS Cada criança é única. Se tem um menino que dorme sentado no restaurante, tem criança que acorda quatro, cinco, seis vezes durante a noite. Que demora para dormir e no dia seguinte acorda os pais antes das seis da manhã.

Saiba ainda que o seu casal de amigos não deixou de ir para "vigiar" o filho que estava dormindo. Muito provavelmente, eles aproveitaram a deixa para poder dormir mais cedo e recuperar o sono de uma noite anterior de insonia. Eu sei, já aconteceu exatamente a mesma coisa comigo...! RSRS Você está partindo de uma premissa errada, acredite.

E outra, não estamos "presos" em casa. Depois de um tempo acabamos ficando um pouco mais caseiros, por diversos motivos. Os homens porque gastam menos fazendo um churrasquinho em casa para um casal de amigos. As mulheres por saberem que a própria residência é o "ambiente controlado" por excelência quanto trata-se de um local seguro para seus filhos. E, por fim, ainda temos o Netflix e o serviço de delivery. O que poderiamos querer mais...?! RSRS

Além disso tenha certeza, de que os homens estão bem mais atuantes na criação e educação dos filhos na alvorada desse novel século. Eu mesmo já fiquei durante todo o mês de férias da minha filha - eu também estava de férias - cuidando dela em casa, durante todo dia, enquanto a mãe trabalhava. E isso já aconteceu algumas vezes. Esse é o novo normal depois que a contratação do serviço de uma babá virou um luxo que nem a classe média consegue mais bancar.

Para terminar, reiterarei o que disse no meu comentário anterior: todos os pais e mães devem buscar ter a consciência de que esse período de atenção e cuidados intensos com os filhos dura muito, muito pouco. Sua mãe, citada em seu comentário, conviveu bem mais tempo com a Christina adulta do que com a Christina bebê ou mesmo com a Christina criança. Suas fraldinhas sujas, seus remédios caros e suas consultas no pediatra já devem ser uma lembrança bem distante para ela, neste momento da vida. Esse é o cerne das minhas colocações. Alertar a todos para a transitoriedade e efemeridade desses pequenos e importantes momentos...! continuar lendo

@saraproton

Obrigada por comentar e desculpe a demora em responder. Mas agora o comentário do @daviddevasconcelos me deu uma luz para conseguir dizer o que eu queria dizer. É o seguinte: como ele disse, tudo se trata de você se organizar para ter o tal tempo de qualidade dos seus filhos. Desconectar é essencial. Concordo com ele. Sobre seu caso de como lidar com a tal borracha a mais, não pense que me passou despercebido. Meu pai, nascido em 1922, uma vez teve que devolver um lápis 'estranho no ninho' que meu avô achou no material dele. Imagine só, o ano era 1930. Nem em sonho os pais tinham mais tempo com os filhos que hoje em dia. No caso do meu avô, talvez até menos. Como servidor público na "coletoria estadual", de fato, ele coletava os impostos das pessoas, de porta em porta, literalmente, e depois tinha que fazer, mensalmente, uma longa e exaustiva viagem à capital para prestar as contas e fazer, literalmente, o depósito dos valores nos cofres públicos. Tudo com a contabilidade feita à mão, sem calculadora e nem computador e nem mesmo uma reles caneta esferográfica (tudo na base da canete tinteiro: escreve dois números, molha a ponta, escreve duas letras, molha a ponta). Tempo, era a coisa que ele menos tinha. Mas teve tempo de reconhecer, ou melhor dizendo, não reconhecer, um lápis no estojo do meu pai. Como isso se deu? Com o tal tempo de qualidade. Como eu disse antes, volto a dizer: os pais hoje estão reféns dos filhos pequenos. Não fazem nada por causa deles e pior: não estão educando melhor por isso. Pelo contrário. Se a professora dá um castigo, ou o preguiçoso do menino TIRA uma nota baixa, ai ai ai. O mundo cai. Pior: na cabeça da professora, que tem que dar mil explicações. Está errado isso. continuar lendo

Texto sensacional, meus parabéns! Muito válida a reflexão. continuar lendo

Obrigada Jamerson! continuar lendo

Texto incrivelmente incrível! Parabéns.

Conheço muitas pessoas que acreditam na NECESSIDADE de ter um companheiro, que PRECISAM se "completar" em outro indivíduo, creem inconscientemente que não podem ser felizes sozinhos e vivem nessa busca constante de encontrar a "metade da laranja", desperdiçando o tempo precioso que têm. Difícil.

Sua resposta para a pergunta inicial se adequou exatamente ao pensamento que levo para minha vida. continuar lendo

Obrigada Andreia!
Essa cobrança que as pessoas fazem a si mesma, além de baixa autoestima, falta de autoconhecimento, também ocorre pela cobrança social e familiar que vivemos, onde praticamente é obrigado a ter um relacionamento a todo e qualquer custo, assim como soa inaceitável não planejar ou dispensar ter filhos... que muitos casais aceitam ter, sem qualquer vontade, porque os parentes e amigos dizem 24h por dia que devem ter, cobram e determinam que um casal só será feliz se tiver filho... E isso serve para tudo na vida né?!

Só quando temos conhecimento de nós mesmos, dos nossos sonhos e limitações podemos recusar com consciência e defender com veemência o que queremos e acreditamos...

Fico feliz por compartilhar sua opinião e vida! Um bju continuar lendo