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18 de Agosto de 2019

Suicídio Infantil: um tabu urgente a ser quebrado

Sara Próton, Advogado
Publicado por Sara Próton
há 5 meses

Após o lamentável massacre de Suzano, muito se diz sobre a facilidade de contato com armas de fogo, sobre o vício de videogame dos nossos jovens, a falta de segurança em escolas públicas e redução da maioridade penal, entretanto um assunto assustador está por trás: SUICÍDIO INFANTIL.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), entre 2002 a 2012, houve um aumento de 40% na taxa de suicídio entre crianças e adolescentes (10 e 14 anos) e de 33,5% na faixa etária de 15 a 19 anos. ABAIXO DOS 8 ANOS A TENTATIVA DE SUICÍDIO OU SUICÍDIOS SÃO CONSIDERADOS ACIDENTES, então imagine os números reais?!

Você acredita mesmo em intoxicação infantil? Que seu filho tomou remédio por engano? Quantas vezes isso já aconteceu? “De acordo com os registros existentes no Centro de Informações Toxicológicas (CIT), 4.658 crianças e adolescentes gaúchos tentaram se matar, apenas por autointoxicação, entre 2005 e 2013.”

Verdade que um dos assassinos não era uma criança, mas um adolescente de 17 anos, mas o suicídio infantil é uma realidade crescente no país. Esse adolescente já sabia que não iria sair com vida desse massacre, e provavelmente não se matou porque a polícia chegou. Quem sabe retirar a própria vida não fosse a sua única e real intenção?

Junto ao caso vem diversos problemas, o jovem foi EXPULSO em 2018 da escola, a pergunta que fica é por qual motivo, e qual tratamento foi oferecido para que ele mudasse de comportamento? Pessoalmente não concordo que expulsar um aluno seja a melhor forma de educa-lo, isso SIGNIFICA A DESISTÊNCIA DESSE INDIVIDUO, que muitas vezes age de modo rebelde pela ausência dos pais e até mesmo por sofrer abusos sexuais em casa.

Ninguém pergunta a uma criança ou adolescente o que ela passa, ninguém cogita a prática de abuso sexual pelos familiares – quando na verdade a maioria dos estupros ocorrem por pessoas próximas, incluindo mães, pais, avós, irmãos. Parece um outro mundo escrever isso, MAS O QUE VOCÊ FARIA, OU SENTIRIA SE A SUA MÃE, PAI OU AVÓ ABUSASSE SEXUALMENTE DE VOCÊ? Pessoas que deviam lhe dar amor, respeito e exemplo, violando o seu corpo...a quem você iria recorrer? Quem acreditaria em você? A violência e rebeldia de uma criança muitas vezes é um pedido de socorro, mas que ninguém se importa ou procura saber o que significa.

Deixo claro que não conheço o autor do crime e tampouco a sua família, mas o massacre levanta diversas temáticas negligenciadas, como o suicídio, a exploração sexual infantil e abuso sexual infantil - afinal isso infelizmente acontece por mais doloroso e monstruoso que pareça, e justamente por tanto tabu é que acontece, afinal, ninguém duvida dos pais e família. No suicídio infantil, assim como o suicídio de adultos, a criança não deseja morrer, mas cessar o seu sofrimento.

"A massa dos pediatras não tem conhecimento nessa área. Neste mês de outubro, tentei de todos os jeitos incluir uma mesa sobre suicídio em um congresso de pediatria. Negaram."(Vitor Stumpf, médico voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV)


FRUSTRAÇÃO: hoje nossas crianças não aprendem a lidar com a frustração, com fracasso, com “não”, não são ensinadas a compreender as próprias emoções.

MEDICAMENTOS: dia após dia pais ausentes tratam os filhos com remédios ao invés de dialogar e saber de suas dores, e os médicos não se importam, prescrevem remédios e criam doenças para todas as crianças que entram no consultório, sendo que a grande parte tem apenas a doença da ausência de atenção, presença e afeto dos pais.


VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA: humilhação, menosprezo, comparações, ameaças, alienação parental

VIOLÊNCIA SEXUAL: como já citado, com ou sem penetração – vez que mulheres também estupram crianças, porém em grande parte com a prática de sexo oral, masturbação e “favores” sexuais diversos. Na ocorrência de penetração, quando machuca a criança ou transmite doenças os números chegam ao hospital, mas a realidade dos abusos sofridos por crianças vai muito além do divulgado, lamentavelmente.

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: a alienação parental é um desdobramento natural da violência doméstica, em que a criança é a maior vítima. Crescer em lar violento, cheio de brigas, discussões, gritos – não é saudável para um adulto, imagine uma criança? Como ela crescerá e terá saúde mental?

ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: uma das válvulas de escape das crianças e adolescentes é o uso e abuso de álcool e outras drogas, vivendo cada dia por um período maior fora da sua realidade, não porque queira, mas porque o seu maior desejo é não lembrar o que passa em casa e o que sente, o que piora a depressão.

AUTOMUTILAÇÃO: a prática de se cortar e ferir não é moda, é uma forma de alivio a inquietude da mente e ao borbulhar de dor interna – a dor física alivia a dor da alma. Sabe esses adolescentes cheios de munhequeira, blusa de frio, pulseiras, braceletes, sempre tampam uma parte especifica do corpo? Então...

GRAVIDEZ: entre uma das causas do número elevado de suicídio de meninas é a gravidez precoce, por não conseguir lidar com a gravidez e carregar o medo da família, prefere tirar a própria vida

Crianças e adolescentes precisam de um lar sadio e em harmonia para crescerem emocionalmente saudáveis. A violência doméstica que se comete contra o parceiro (a), é uma violência que se estende ao filho, e o que chamamos de rebeldia em boa parte é a repetição do que vive em casa...um pedido de atenção, afinal QUANDO FAZ ALGO ERRADO TODOS OS OLHARES SE VOLTAM PARA ESSA CRIANÇA, ENTÃO PELO MENOS NESSE MOMENTO ELA SE SENTE ESPECIAL, ÚNICA E CAPAZ DE SER VISTA PELOS OUTROS.

A psiquiatra da infância e da adolescência Berenice Rheinheimer, em sua tese de mestrado trouxe alguns dados importantes:

a) forte aumento nas tentativas no universo dos oito aos 17 anos

b) predominância no suicídio de adolescentes no 2º semestre do ano

c) tentativas ocorrem durante a semana

“Chamou a atenção que a véspera de Natal foi o dia com menos casos ao longo de nove anos. Depois, veio o Dia das Crianças. É um achado que não esperávamos. Não há relato sobre isso em lugar nenhum. Pode ter relação com o fato de nessas datas as crianças estarem em casa, com as famílias, mais satisfeitas. É uma hipótese"– observa a psiquiatra

d) na autointoxicação predomina o uso de antidepressivos (23,47%), ansiolíticos (20,76%), antitérmicos (15,20%) e anticonvulsivantes (13,01%) – e 98,5% ocorre em casa, ou seja, crianças que fazem uso desses medicamentos (a pergunta é por que?) ou tem acesso por descuido dos pais – não sei qual a pior alternativa

Alguns dados: dentre 77 mil casos registrados no SUS de abuso sexual infantil, 84% eram contra meninas e 16% contra os meninos, mas o questionamento novamente é: será que o número é apenas esse, ou é porque a violência sexual contra os meninos nem sempre deixam vestígios físicos?

I – 44,6% dos meninos sofreram abuso sexual entre os 5 e 9 anos de idade;

II- 71% dos casos os abusadores eram alguém de confiança da vítima;

III- 63% dos casos de abuso sexual infantil ocorreram dentro da residência, logo, os violentadores são familiares;

IV – Segunda o OMS, estima-se que 27% dos meninos até os 12 anos de idade sofreram ou sofrerão algum tipo de abuso sexual.

Ainda, conforme pesquisa realizada pela organização Darkness to Light, nos Estados Unidos:

I- 1 em cada 25 meninos serão abusados sexualmente antes dos 18 anos;

II- 90% das crianças vítimas conhecem seus abusadores;

III- Dentre as crianças abusadas com menos de 6 anos de idade, 50% sofrem as práticas por membros da família.

Conclusão: Toda rebeldia tem uma causa, e o ideal é levar à criança/adolescente a compreensão do que sente. Ao invés de julgar crianças e adolescentes, tente descobrir e ajudar as suas dores, talvez você salve uma vida – que os próprios pais não percebem que está prestes a se findar.


" Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a. "- Goethe

Outros textos:

1- https://saraproton.jusbrasil.com.br/artigos/607691956/abuso-sexual-de-homens-um-crime-que-comeca-na-infancia

2 - https://saraproton.jusbrasil.com.br/artigos/673159274/violencia-domestica-transtornos-de-personalidadeegenero

3- Livros:

Belas e Feras - a violência doméstica da mulher contra o homem

Útero artificial: uma solução para o fim das práticas abortivas

http://www.bookess.com/profile/saraproton/books/

15 Comentários

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Acho no mínimo ridículo colocarem a culpa destes atentados nos jogos de videogame. Ouvi um comentário esdrúxulo dizendo que games são criados por ''mentes doentias''. Doente é quem pensa que pode fazer na vida real o que se faz no jogo. Quem coloca a culpa dessas tragédias em jogos de videogame realmente está querendo vendar os olhos para um problema muito mais sério do que o joguinho, que é a saúde emocional e psicológica da pessoa. Além da qualidade da educação que é VERGONHOSA no nosso país, inclusive nas escolas particulares.

Com a devida vênia, mas terei que discordar do autor quando ele faz alusão ao ''vício em jogos de videogame'', cabem a ninguém menos do que os pais da criança e do adolescente educá-lo e instruí-lo de forma que possa separar os games da realidade.

Com isso manifesto meu verdadeiro sentimento de REPÚDIO às argumentações que tentam culpar os videogames, filmes e séries pelas tragédias da vida humana, balizadas principalmente pela mídia. continuar lendo

Concordo exatamente com o que escreveu, o início do artigo era apenas a reprodução das falas que havia escutado ontem, e que infelizmente persistem hoje: culpa de videogame, redução da maioridade penal, acesso a armas... justificativas que não tratam o problema, não solucionam e menos ainda explicam a realidade de crianças/adolescentes violentos e suicidas. Hoje o dia está ainda pior, palanque politico e discussões entre esquerda x direita que não levam a nada, infelizmente!

A educação é vergonhosa como você bem colocou, mas os pais também têm a sua parcela de culpa, pois grande parte quer ter filho, mas não quer ser pai. Ter filho não é fácil, não é apenas colocar no mundo - como dizem, ser pai vai além. Famílias comuns não tem dado atenção as crianças, imagina as que são vitimas de abusos ou crescem em casas repletas de violências?

O problema está nas pessoas, nas relações, na ausência de saúde mental e emocional e não em objetos. continuar lendo

Conseguir armas ilegais parece ser bem mais fácil do que as legais.
Basta ter dinheiro e a arma está nas mãos.
Então me parece que o problema não está nas armas e sim, na mãos.
Será que a solução passaria pela inclusão social e mais qualidade na educação?
Ou leis mais duras e multas pesadas resolveriam tudo?
Talvez construirmos milhares de presídios? continuar lendo

Justamente...quem quiser matar ou agredir alguém faz com qualquer objeto. Devemos refletir sobre a raiz do problema, por que crianças estão extremamente violentas, com raivas, depressivas e tirando a própria vida?
Problemas na família, abuso sexual, falta de atenção, um lar sem qualidade e equilibrio, o mundo virtual e a falsa perfeição?!
Educadores devem ficar atentos, e pais repensarem no próprio comportamento.

Presídio não previne, não trata... A RAIZ sim deve ser descoberta e tratada, mas precisa de toda a sociedade interessada em mudanças... continuar lendo

É exatamente assim que penso, Sara. continuar lendo

Discordo das opiniões em relação a vídeo games, pois não se tem uma coisa a ver com a outra, encontrar o personagem de "PUBG" (acredito que seja esse o jogo) parecido com o traje do jovem não prova nada, eram roupas muito comuns que os adolescentes usam a muito mais tempo, mesmo a mascara que o garoto usava já existia antes do jogo se tonar famoso. Um jogo não tem como penetrar na mente para obrigar ninguém a praticar atos, jogos não são objetos causadores de nada, são objetos que alimentam a mente com informação, não intenção.
A culpa disso não é somente dos educadores, é do Estado que sempre toma pra si a responsabilidade dos atos praticados pelos cidadãos resolvendo punir que conscientizar, de modo que isso tem usurpado cada vez mais o poder familiar, aquele que deveria proteger e educar e saber o que há de errado, é muito simples sempre por a culpa em jogos e no bulyng, já que são a causa de tudo hoje, mais um numero pra estatística, não importa se foi a causa real ou não, é mais fácil culpar esses fatores que culpar a ausência da família que deveria saber o que ocorria com o adolescente, os jovens dão indícios de sua intenções antes de praticar, como todo crime praticado por adulto há os elementos da ideia, preparo e ação, onde os pais deveriam saber o que ocorria e se não souberam estavam ausentes e pouco se preocupavam com o filho. continuar lendo

Exatamente, videogame não é justificativa - foi uma mera citação do ouvido ontem (e hoje está ainda pior, com psicólogos e mil profissionais justificando algo que não tem que ser justificado). Se toda criança que jogasse CS, Doom e tantos outros fossem matar, a autora que lhe escreve já teria sido presa, e na realidade não mato nem formiga...assim como tantos outros jovens (para não falar todos).

Pais ausentes porque não são pais, apenas procriaram! Pai demanda presença, carinho, cuidado, atenção e tempo...e hoje é legal ter filho para tirar fotinha p/ rede social. Ao invés de conversar com os filhos ou compreender o que sentem, compra-se uma tonelada de presentes, da viagens, manda o filho fazer intercambio (não que seja algo ruim) mas só para se afastar da responsabilidade e do contato com a criança.

Ótimo e pertinente comentário, pois muitas vezes a criança não sofre abuso sexual, mas sofre pela negligencia afetiva dos pais...o que deve doer e acarretar traumas de modo semelhante! continuar lendo

A razão é simples: falta de Deus no coração. E por Deus, é mais do q religão, mas criar as crianças com valores éticos, morais, religiosos, com disciplina, ouvindo nãos e sins, com carinho, amor, mas ensinando-os q a vida não mima: vc tem direitos, claro, mas a cada direito corresponde um dever, e q ng te deve e nem te dará nada: tudo seu terá q ser conquistado pelos seus esforços e isso é uma coisa boa. Raros são os pais que criam os filhos assim, atualmente. Temos essa geração fresca, pera com leite, pão com nutella, que precisa do papai Estado tutelando tudo, q não aguenta ser zoada, ser rerpeendida. E se frustra muito rápido, aos primeiros sinais de dificuldades. Estamos criando fracos. continuar lendo