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14 de Outubro de 2019

Socialismo Pós-Capitalista: um efeito do Darwinismo Tecnológico

Sara Próton, Advogado
Publicado por Sara Próton
há 2 anos

Vivemos em tempos de crescimento exponencial, ilimitado, mas que já pode ser visto. Superamos os primatas e suas ferramentas de caça, a Revolução Agrícola com as charruas e animais de tração, a Revolução Industrial com as primeiras máquinas a vapor e o processo de mecanização da produção e a 2ª Revolução Industrial com a eletricidade e combustível. Estamos na 3ª Revolução Industrial, também denominada de Revolução Informacional, caracterizada pela mobilidade e caminhamos para a Revolução Industrial 4.0, ou Cognição Aumentada.

Faz-se mister ressaltar, que a Revolução que se aproxima rompe o padrão de implementação das revoluções realizadas até então, pois a sua velocidade, alcance e impacto serão globais. Mas afinal, o que é inteligência artificial? Inteligência artificial não se resume a robôs, na verdade inteligência artificial é qualquer artefato extra homem, criado para eficácia e melhoramento físico ou mental, ou seja, automatização. O termo foi criado por John McCarthy, em 1956 e consiste na “capacidade de uma máquina realizar funções que, se realizadas pelo ser humano, seriam consideradas inteligentes”.

A inteligência artificial é associada a linguagem e sentidos humanos, raciocínio, agilidade, precisão, memória, rede neural e solução de problemas. Ela se divide ainda em IA Fraca, que consiste na repetição de pensamentos e ações anteriormente inseridos ou programados numa simulação de inteligência, e IA Forte, que é a capacidade de aprendizado autônomo e autoconsciente. A inteligência artificial fraca já é facilmente percebida nas funções operacionais do Direito (coletas de jurisprudências e elaboração de contratos); no uso de assistentes virtuais pessoais como o Google Assistent (Google), Alexa (Amazon), Cortana (Microsoft); chatbots em empresas de telemarketing; jogos com realidade aumentada; usos de robôs em cirurgias de precisão, teleconsultórias e telemedicina e softwares de criação de músicas e poesias. Já a inteligência artificial forte, por questões éticas até o presente não está no nosso meio.

Cercados pela inteligência artificial, conseguimos inúmeros benefícios, como a segurança residencial com o monitoramento eletrônico agregado ao reconhecimento facial dos visitantes, e a economia de tempo com os check ins online, entretanto, encontramo-nos num cenário de transformações e vulnerabilidade profissional.

Alguns trabalhos já foram substituídos com a atual inteligência artificial e pouco sentido e percebido pela população, porém nos próximos anos diversas profissões deixarão de existir pela desnecessidade delas e por maximização em prol da eficiência. As primeiras profissões e trabalhos a desaparecerem serão os relacionados a mão de obra crua e direta, e estes trabalhadores poderão ser reaproveitados em outras funções que surgirão, todavia, qualificação e atualização demandam tempo, tempo esse que caminha em velocidades inferiores a evolução tecnológica, que abraçará apenas indivíduos com propósito, protagonismo e performance.

O trabalho intelectual, em geral, não será substituído pois embora em curto período seja possível o uso da inteligência artificial forte, por princípios morais permanecerá contido. Outros trabalhos ligados ao empreendedorismo surgirão e ganharão espaço, principalmente ligados a produtos e serviços de necessidade básica, como alimentação personalizada, caseira e natural, tendo como exemplo, os já existentes fazendeiros urbanos.

A inteligência artificial propiciará um mercado promissor para pessoas esclarecidas, criativas e destemidas, em diversos ramos e temas, por exemplo na implementação, construção e manutenção de smart house; segurança de dados e blockchain; processos judiciais que envolvam a responsabilidade civil de acidentes em locação de carros automáticos; soluções para colapso de energia em cidades inteligentes; materiais transformáveis; mediação e conciliação nos conflitos de privacidade versus interesses no uso de Big Data; pirataria em impressões 3D de casas e carros; tecnologias implantáveis; ciber cimes e hacking; accountability; queda na arrecadação de multas em decorrência do uso de carros automáticos; redução da importância dos bancos e dependência de moedas digitais para o crescimento do PIB mundial; manutenção de aplicativos e equipamentos; hacking cerebral; contratos de locação de robôs para acompanhar as pessoas em determinadas atividades ou educar os filhos; computação quântica e intermináveis possibilidades para pessoas aptas à inovar e se adaptar.

Todavia, os indivíduos incapazes de acompanhar o mercado global e as transformações trazidas pelas inteligências artificiais passarão pelo darwnismo tecnológico, ou seja, inadaptáveis e inutilizáveis no mercado de trabalho, deste serão eliminados, e contarão com o assistencialismo do governo, de empresas e dos membros da sociedade empregados e férteis.

Voltaremos então ao socialismo, mas um socialismo pós capitalista, não porque o capitalismo não deu certo, mas porque uma parte da população não teve eficiência em produzir individualmente e será mantida pelos sujeitos que têm renda. Essa será a dinâmica equilibrada do mercado e da vida: economia de compartilhamento. Para alguns, algo impensável, para outros pavoroso, mas é a realidade que bate à porta, cuja entrada é irrecusável!

Franz Kafka escreveu: De um certo ponto adiante não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado. Sim, esse ponto já foi alcançado, e tem um mundo de inovações a espera de personagens com potencial criativo e despidos de medo, aos demais, porém, sobrará “sombra e água fresca”.

REFERÊNCIAS:

BARR, Avron; FEIGENBAUM, Edward A. The Handbook of artificial intelligence. Volume 1. 1949. Disponível em: https://archive.org/details/handbookofartific01barr

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2010

LUGER, George F. Artificial intelligence: structures and strategies for complex problem solving. 6th ed. Disponível em: http://iips.icci.edu.iq/images/exam/artificial-intelligence-structures-and-strategies-for--complex-problem-solving.pdf

NASCIMENTO JÚNIOR, Cairo Lúcio; YONEYAMA, Takashi. Inteligência artificial: em controle e automação. São Paulo: Edgard Blücher, 2014. vii, 218 p. ISBN 9788521203100.

NILSSON, Nils J. The quest for artificial intelligence a history of ideas and achievements. Stanford University, 2009. Disponível em: http://ai.stanford.edu/~nilsson/QAI/qai.pdf

RUSSELL, Stuart J; NORVING, Peter. Inteligência artificial, 1962. Tradução Regina Célia Simille. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.

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