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14 de Outubro de 2019

Homofobia, Futebol e Violência Doméstica

Sara Próton, Advogado
Publicado por Sara Próton
há 2 meses

"A primeira igualdade, é a justiça."

Dia 25 ocorreu um episódio lamentável no jogo do São Paulo x Vasco que permite algumas reflexões não apenas sobre o primitivismo e animalidade, mas sobre o vazio existencial que os indivíduos têm nutrido, e enfurecidos e frustrados pelas próprias faltas despejam nos outros.

Muitos me perguntam sobre como as pessoas LGBTI's vem o meu trabalho quanto a violência doméstica ser uma questão de SAÚDE MENTAL COLETIVA e não de gênero (e segurança pública), e principalmente porque o meu trabalho principal é o "Belas e Feras - a violência doméstica da mulher contra o homem" - o que para algumas pessoas soa como se falasse que inexiste violência doméstica contra as mulheres, quando na verdade não são excludentes, e sim TODOS representantes e movimentos e também cidadãos comuns que se definem como LGBTIs apoiam porque também passam ou já sofreram algum abuso conjugal, porque é uma crise atual e inerente aos seres humanos, não ao tipo de família estabelecida.

Porém, por fatos como o ocorrido no jogo, as pessoas LGBTI's ficam em silêncio - afinal lamentavelmente ainda carregam preconceitos e temem serem vistas como violentas. Mulheres homoafetivas também são protegidas pela Lei Maria da Penha, mas poucas sabem disso ou procuram a Delegacia da Mulher. Já os homens homoafetivos (e heteros) não são protegidos pela lei de violência doméstica.

Além de excluir o gênero masculino, a Lei Maria da Penha na prática (porque na lei ela atende mulheres homoafetivas, mas entre uma lei de papel e uma real existe um longo caminho)é excludente quanto a orientação, em que a violência doméstica entre lésbicas é vista com TRIVIALIDADE . Trivialidade essa abordada no artigo “Mulheres que batem em mulheres: relatos da ocorrência da violência doméstica na relação homoafetiva de lésbicas em Belém-PA”:

Segundo a declarante, a mesma pediu para os Policiais Militares não identificados para ser conduzida para uma Delegacia sendo orientada pelos mesmos a refletir se era isso mesmo que queria, pois naquela ocasião como era domingo a Delegacia estaria muito tumultuada. (ALENCAR, 2017, p. 52)

Não se fala, não se denuncia, não existe – é com este muro de silêncio que as mulheres lésbicas batidas pelas suas companheiras se debatem quotidianamente, enfrentam um duplo estigma: enquanto lésbicas e enquanto vítimas de violência. (SANTOS, 2012, p. 20)

O resultado desse silêncio são pesquisas falaciosas que dizem que casais homoafetivos são mais violentos, quando na verdade PERMANECEM POR UM LAPSO TEMPORAL MAIOR no relacionamento abusivo, justamente pelo preconceito que carregam e pela REJEIÇÃO DA FAMÍLIA, outras vezes por chantagens e temor a exposições.

Por que permanecem mais tempo no relacionamento?

a) porque sofrem rejeição da própria família, se veem desamparados, sem afeto dos pais, irmãos e veem a pessoa abusadora como única que ainda oferece amor e dedicação, mesmo que a visão de amor seja errônea. Conforme o “Relatório sobre violência homofóbica no Brasil, ano 2012”, do total de 3.084 registros de violência, 17,72% foi cometida por familiares. Como uma pessoa sairá de um relacionamento abusivo se a própria família também violenta?

b) porque sofrem chantagens, vez que uma parcela não assumiu publicamente o relacionamento. Por medo de perderem o emprego, status, amigos e até mesmo a família, se submetem as chantagens mesmo desejosos em findarem a relação

Há aproximadamente 3 meses estão separadas, porém a citada chamou a relatora para uma conversa, ocasião em que a relatora não se dispôs a reatar a relação, motivando a relatada a proferir ameaças sob os textuais “que vai denegrir sua imagem, que vai tirar tudo o que a relatora tem, acabar com a sua carreira profissional. […] ligou para a sua família e revelou a opção sexual da relatora amealhando ainda contar para sua mãe. (ALENCAR, 2017, p. 47)

c) porque acreditam que merecem o sofrimento e aceitam as violências porque também não se aceitam, uma forma de homofobia internalizada

Será que silenciar a dor dos outros e não inclui as pessoas homoafetivas como vítimas de violência doméstica, é porque aceita e acha que eles merecem o sofrimento, sem nenhum amparo legal, ou é mero desinteresse/desconhecimento da realidade a volta? Afinal, basta abrir os olhos em qualquer balada, bar, faculdade e perceber as exatas violências que qualquer casal hetero sofre/pratica/troca, também existentes em casais homoafetivos.

Ao final, TODOS SOFREM com a insistência de que violência doméstica é um problema heteroafetivo. Passou da hora da Lei Maria da Penha proteger não apenas "mulheres!, mas todas as"PESSOAS", porque é o que nós somos e assim devemos ser tratados, sem distinção. Direito não se faz diferenciando pessoas, mas INCLUINDO!

https://canalcienciascriminais.com.br/a-invisibilidade-da-violencia-domestica-homoafetiva/

https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2019/08/25/vascoxsao-pauloeparalisado-por-ar...

https://www.instagram.com/saraproton/

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